sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Pela primeira vez o carnaval de Salvador enfrenta sexta-feira, 13

O Carnaval de Salvador atravessa, hoje, pela primeira vez, uma sexta-feira, 13. O fato ocorre desde que os dias de folia foram ampliados, em 1981, por decreto do então governador Antonio Carlos Magalhães suspendendo o expediente nas repartições públicas na sexta-feira anterior à festa.
Ao contrário do que muitos temem, como sendo um dia de azar, a passagem do Carnaval pela data, todavia, não deve afetar à maioria dos trios elétricos, blocos e grandes camarotes instalados em Salvador. Isso porque, de acordo com o babalorixá André Nery, “a maioria promove trabalhos de limpeza e oferendas junto a diversos terreiros de candomblé de Salvador”. Boa parte dos blocos fazem a “limpeza” visando “garantir boa venda de abadás e assegurar o lucro e o sucesso no desfile”.
Conforme Nery, os trabalhos requisitados pelos empresários de camarotes vêm sendo realizados há seis meses. “O propósito é facilitar o acesso e abrir os caminhos para garantir o patrocínio das grandes empresas” cujo marketing adota os dias da festa para promover marcas e produtos, revela Nery.
Segundo ele, “no âmbito do Candomblé a sexta-feira é sempre um dia sagrado, por ser consagrado a Oxalá e o 13 de junho marca a data de nascimento de Ogum, por isso no sincretismo com santos do catolicismo, ele está vinculado a Santo Antonio, que também é comemorado naquela data”. O babalorixá ressalta, ainda, que “o 13 é sempre tido como um número de sorte nas bancas de jogo”.
Nery aconselha os foliões a “levantar com o pé direito e oferecer milho branco a Oxalá pedindo paz durante o festejo. Quem desejar pode também tomar banho de milho branco”, sugere. Ele destacou, do mesmo modo, que “todos os terreiros de candomblé arreiam milho branco às sextas-feiras, dia de vestir branco”, um legado dos escravos malês.
A limpeza dos camarotes é feita usando folhas de descarrego, panos brancos, pretos, vermelhos e estampados, milho branco, pemba branca, galo claro – que são passados nas dependências. “O galo é solto depois em local distante para levar as coisas ruins e deixar um alto astral nos espaços” reservados para os foliões mais descolados. Conforme o babalorixá, “o milho branco é sempre muito usado nos trabalhos para o Carnaval”, pela religião afrobrasileira, “por ser fundamental para evocar oxalá e trazer a paz para a festa”.
Ele explica, ainda, que “após a limpeza é preparado o ebó com farofa, grãos e bebidas como cervejas, champagnes, whisky e, geralmente, arriado na Avenida Paralela ou em outras áreas da cidade que disponham de muito verde ou bastante vegetação”. Os grãos utilizados para a limpeza - André Nery mencionou girassóis, arroz com casca, milhos branco e vermelho, alpiste e feijão – têm o poder de se multiplicar, com isso possibilitar boas vendas.
Todo o trabalho feito pelos sacerdotes do candomblé é antecipado pelo jogo de búzios. De acordo com Nery, “são os búzios que revelarão o que tem nos locais, como mau olhado, maus espíritos, feitiços – e o que será necessário para remover esses obstáculos”. Daí, argumentou, “a necessidade de que sejam feitas grandes oferendas, tanto para os orixás quanto para os caboclos”. O babalorixá garantiu existir “empresários que oferecem até bois para agradar os orixás”. Ele revelou, ainda, ser necessária a oferenda a Exu – orixá mensageiro – “porque Exu é o dono da festa”.